Dica de Leitura
Sertão Alegre - A Carta do Matuto por Leonardo Motta
Mamãe. Parnaíba é uma cidade monarca de grande. De manhazinha se alvoroça tanta gente na beira do rio que parece formiga ao redor de lagartixa morta e quase tudo é trabaiador caçando ganho. O mercado é outro despotismo. Se arreune mais povo do que na desobriga quando o padre diz missa na capela dos morros da Dona Chiquinha. Tudo se vende, de tudo se faz dinheiro. Fiquei besta de espiar gente comprando maxixe, quiabo, limão azedo, folha de João-Gome e inté taiada de girmum.
O passadio daqui é
bom. Todo dia eu como pão da cidade com manteiga do reino. Mamãe. As coisas
aqui são muito deferente e adversas daí. As casas são apregadas uma nas outras
que nem casa de maribondo de parede e é quase de telha e atijolada e tem umas
calçadas e forrada de táuba pru riba que nem gaiola de xexéu e se chama
sobrado.
Gente rica é
O povo daqui tem um
sestro munto engraçado. Não diz “ô de casa”, não; quando chegam nas casa
alheia, bate é palma como quem estruma cachorro mode acua tatu no buraco.
Mamãe, a luz aqui é feita num tal de gazome. Não precisa pavio nem trucida de
algodão mode acender. É só distrocer uma torneira como quem tira cachaça de
ancoreta e riscar um fosco que a luz acende biatamente e tão culara que faz é
gosto. Se o cristão não acender mais que depressa espáia um cheiro de cebola
podre danado, diz pru via dum tal de carabureto.
Mamãe aqui tem um
jogo chamado biá que num hai diabo no mundo que intenda, mais porém, só joga
nele gente de famia. É arredor duma mesa grande forrada cum pano como baú de
pregaria e os jogador segurando umas vara mode empurrar uma bola que é vê ovo
de ema. Quando estão jogando dê por visto dois mexedor de farinha num forno de
barro, ajeitando os rodo mode não desmanchar os beiju. Mamãe, aqui tem também
uma latejo invisive que é um tal de cinema. É só a musga tocá, aparece uma
figura de gente, de animal e de rua, tudo prefeito, mesminho, como se estivesse
vivo e bulindo. O cinema é um pano esticado parecido com vela de embarcação e é
a coisa mais bonita eu já vi.
Mamãe, cheguei onte
de Tutoia. Fui nas barca da Companhia Busse mode trabaiá num vapor inguilez,
ganhando dois minréis por dia e quatro pru noite. Na Tutoia a gente vê o mar
inté onde ele encosta nas parede do céu. As barca sacode a gente chega faz dô
de instambo e vontade de vomitar qui nem urubu novo, tudo isso pru via de
desassossego do mar. O vapor inguilez é um paidégua de grande, maior do que a
vazante de fumo do compadre Domingo Preto e mais alto do que o pé de tamarina
da porta lá de casa. Os purão de botá carga é tão fundo que escurece a vista de
cristão que espiá.
Mamãe, o pessoal que
mora no vapor são tudo branco rosalgá, ôio azu, cabelo vreimeio. A fala deles
só pro diabo, não hai no mundo quem intenda: é uma embruiada como de piriquito
em roça de milho novo. São danado por papagaio ou por uma garrafa de geritiba.
Quando os inguilez falam uns com os outro é uma trapaiada direitinho a de tia
Damiana adispois qui teve a molestrite do ar.
Outra coisa engraçada
que eu acho nos inguilez do vapor é tudo se chamar piloto, mode coisa qui os
padre da terra deles não batizam ninguém com outro nome. Preu lhe conta tudo
direitamente não hai papel que chegue. Vou acabar pruque já me dói as bonecas
dos dedo de eu tanto escrever.
Pesquisador Leonardo Mota, 1938.
O Segredo do Lobo
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Foto: Miro Maia - Pôr do sol entre as carnaúbas, Russas - CE. |
As ruas já estavam todas vazias, somente o vigia da noite perambulava com seu apito sonolento. Aquela era uma cidade feliz, seus habitantes dormiam tranquilamente. Sem o medo dos tempos em que vivemos. Por outro lado, a característica de indignar-se e agir contra atitudes que ofendem a lei de Deus e dos homens permanecia letárgica.
João Batista,
conhecido por todos na Vila como Bastião, gostava dessas noites largadas para
se dedicar à contemplação das velhas casas que compõem o centro de São Bernardo
das Russas. Andava em suas ruas, sentia o aroma múltiplo daquele espaço e
depois, deixava-se embalar pelo vento solto e desimpedido do largo da Matriz.
Já testemunhou alguns
movimentos estranhos em suas rondas noturnas, situações e acontecimentos sem
explicações. Uma vez ouviu vozes que negociavam alguma mercadoria no beco do
Mercado Velho, mas ao entrar no bequinho, não avistou um ser vivente. Ficou se
arrepiando toda vez que lembrava, e depois do episódio sobrenatural não cruzava
mais beco à noite.
Certa vez, parou para
descansar na calçada da igreja quando ouviu um assovio fino rasgar o vão da madrugada.
Achou ainda cedo para que fosse algum leiteiro, não deveria passar de duas da
madrugada, quando dobrou a esquina da antiga cadeia avistou um dos capangas do
prefeito Balbino Teixeira. O homem voltou imediatamente quando avistou o jovem
fiscal de quarteirão, alguns minutos depois, reapareceu trazendo consigo um dos
filhos de Balbino.
─ Ouvi dizer que roubaram umas
galinhas da chácara do Dr. Manoel Domingues. É bom que vá pra lá e veja se
descobre quem foi! ─ Disse o rapaz cheio de arrogância.
Bastião ouvindo
aquela ordem, começou a imaginar porque o filho do prefeito haveria de ter interesse
nas galinhas do Dr. Domingues?! Não eram tão amigos para o prefeito mandar uma
ronda pessoal. Pareceu-lhe então que era uma invenção mal bolada para afastá-lo
daquele local.
Não fez questão,
imediatamente montou em sua besta e saiu pela Rua da Frente na direção da
igreja de São Sebastião. Entretanto, ao fazer a volta pela pracinha retornou
pela Rua do Mercado, indo até a casa de Chico Sapateiro, em sua oficina o ponto
de visão era privilegiado de todo o movimento do passo municipal.
Observou que do estreito
beco da Rua do Nascente saiu um carro de boi com coberta de lona. O capanga
estava encostado em uma árvore próxima e o filho do prefeito acompanhava o
carro em seu cavalo.
Encostaram bem em frente a porta que fica do
lado de trás da igreja Matriz, abriram as portas da prefeitura, voltaram até o
fundo da carroça e de lá começaram a puxar uma grande jaula de ferro dobrado. Bastião
estava naquele serviço há seis meses e nunca havia visto este movimento. Os
postes a querosene foram apagados e a única luminosidade que se via era a o
lampião na frente da junta de boi e duas lamparinas de mão.
─ Vez ou outra isso acontece. ─
Disse Chico Sapateiro ─ Tem época de lua crescente em fevereiro, que ele vira
lobisome. Diz que é pro mode a lua nascer no dia que era pra ser 30, como não existe
esse dia em fevereiro ele fica invertido e vira sem ser lua cheia 30.
Bastião não entendeu
a explicação, mas olhava para o rosto daquele velho sapateiro, esperando uma
confirmação do que acabara de ouvir. Nunca soube deste caso, nem por
comentário, que o fazendeiro Balbino Teixeira era um lobisomem.
─ Tem certeza? Você já viu ele
encantado?
─ Uma vez eu vi, quer dizer, ouvi!
Eles são bem cuidadoso, outra vez, chegaro perto das três horas, quase não
fizero zoada. Mas o bicho num tava tranqüilo e urrou que parecia uma mistura de
garrote com onça acuada. Pra desencantar eles faz uma mistura de água benta,
raiz da carnaúba, mel de jandaíra e capim-santo, o bicho amolece e eles
arrastam pra dentro da gaiola. Na hora que vão sair eles apagam os candeeiros
pra mode ninguém aguçar bem a visage.
O jovem Chefe de
Quarteirão escutou um movimento e assim como disse o velho artesão do couro, o
carroceiro aprumou os fundos da carroça para a porta da prefeitura. Depois
apagou as luzes mais próximas, amarrou os bois e ficou segurando nas rédias
para acalmar a junta.
A visão que se tinha
era apenas a do lampião da frente da carroça. Uma luminosidade amarelada que demarcava seu
espaço entre a frente da lona da carroceria e um meio círculo que iluminava os
animais. O resto era breu. A escuridão daquela noite transformava as estrelas nas
coisas mais fáceis de ver em toda imensidão, depois vinha a luz amarelada daquele
carro.
O ranger do ferro na
carroceria de madeira denunciava que a carga já está sendo posta. Nada mais se vê
a não ser, o preocupado carroceiro que insiste em acalmar os animais naquele
momento.
[Chico Sapateiro interrompeu o
instante para informar que, ao contrário do que dizem, não é apenas com a prata
que se mata um lobisomem. Também podemos usar uma socadeira municiada com osso
de defunto pilado, misturado com sal e água-benta].
Esse preparo, dizia
ele, faz um efeito ainda mais danoso ao lobisomem, pois mata lentamente ou
deixa o portador da maldição ferido com a pele marcada, delatando a sua
identidade.
Finalmente o
carro-de-boi inicia a sua marcha e sai. Bastião agradeceu ao amigo como se ele
tivesse lhe dado um presente, já se despedindo com pressa. Correu para ocupar o
seu posto, mas ao chegar se arrastando pelas sombras da Matriz, notou que o carro-de-boi
já havia entrado no beco da velha cadeia, fórum e câmara.
Ficou com medo
naquela noite gelada. Foi até a rua do mercado tomar uma cana na banca de tábua
do seu Pilão, mas não comentou com ninguém sobre o assunto. Não sabia até que
ponto este segredo era conhecido ou não, além do mais, já tinha feito planos
para um novo encontro.
Passou-se um ano da
data do acontecido e Bastião não tinha visto mais nenhum um novo movimento
parecido. Até que no dia primeiro de março, estava se distraindo com uma lasca
de cana-de-açúcar, quando a mesma cena se repetiu. Só que desta vez, o capanga
de Balbino mandou logo vir a carroça e foi em direção a ele, mas ao contrário
da outra vez, não pediu a Bastião que fosse ver algum roubo de galinha.
─ Vem cá rapaz, hoje você vai me
ajudar num serviço. O filho do prefeito não pode vir e eu preciso de mais um ─
Disse o capanga.
Bastião sentiu um
frio laminoso que percorria a sua espinha do osso do mucumbuco ao pé do cangote.
Tentou balbuciar alguma palavra mas não conseguiu. Pensou que os homens estavam
sabendo que ele tinha visto o último episódio, nessa cidade as conversas voam com
o vento.
No entanto, lhe veio
à mente que o único que sabia era Chico Sapateiro, e daquele não tinha medo que
falasse nada. Até porque estava morto. Foi encontrado no dia da festa da
Padroeira, coitado, emborcado por cima de sua banca de trabalho.
O caso é que
acompanhou o capanga e ousou até a fazer um comentário sobre o clima agradável
da noite, como quem quer puxar conversa. O capanga respondeu pelo nariz. Bastião
via com arrepio o mesmo carro que fizera o transporte da primeira vez, mas como
já havia lhe confiado a missão, passou a acreditar que tudo estava sobre
controle e que não precisava se preocupar.
Arquitetou no juízo
como faria para conseguir, quem sabe, receber algum trocado. Não sabia se deixava
que oferecessem ou se inventava algum comentário financeiro. Resolveu dentro de
si esperar que o capanga se manifestasse, caso contrário faria um comentário na
despedida do serviço sobre a dificuldade da vida.
─ Você fica aqui segurando a
junta pra elas num afastar. O carroceiro vai me ajudar a carregar a encomenda.
Imediatamente Bastião
agarrou as rédeas do carro e se posicionou na frente dos bois, assim como fazia
o carroceiro, passava a mão nos pescoços dos animais dizendo palavras de calma.
Pensou que aquele segredo deveria valer muito dinheiro, quanto pagariam pra
guardar a cristandade do senhor Balbino Teixeira?
Esperou alguns
minutos até que ouviu os ruídos de arrastado da jaula em quatro rodinhas de madeira.
Os animais se avexaram na hora em que o peso ganhava conforto na carroceria, ele
puxou as rédeas e manteve o carro sob controle.
─ Rapaz eu quero que você me
ajude a entregar essa carga, o carroceiro não tá se sentindo bem do tiso. Você
vai no carro com o ajudante e depois eu mando lhe deixar. É serviço pro
prefeito. ─ Disse o capanga.
Bastião concordou
imediatamente e saíram os dois debaixo do piado da junta de boi, sentia no ar
que saía de dentro da coberta um cheiro de ferro misturado com imundície. No
caminho passaram a conversar sobre assuntos diversos, até que num determinado
momento, a conversa ficou pesada e irreal.
─ Você rapaz tava espiando o
nosso movimento do ano? ― disse o capataz.
─ Não, eu nunca vi movimento
nenhum. ─ Afirmou Bastião aterrorizado.
─ Eu pensava que fosse só aquele
sapateiro velho que soubesse o segredo, cabra conversador de besteira. Agora
ele não fala mais, veneno é bom e deu cabo desse problema.
─ O senhor tá enganado, eu não
sei de nada de movimento, a minha amizade com o Chico Sapateiro num passava dos
remendos que ele fazia na minha bota. ─ disse amarelado.
─ Você se entregou quando foi
tomar conta dos bois ― falou decidido o capataz ― o ajudante me disse que você
fez os mesmos gestos que o carroceiro faz na hora que acalma a junta de boi.
Coisa que só pode acontecer se você tivesse visto ele fazer. Agora é tarde
vigia da noite.
Bastião virou-se já
com a intenção de pular do carro e ganhar o mato, quando avistou cercando o
caminho um plantel de capangas liderados pelo filho de Balbino Teixeira. Ao
lado avistou o carroceiro com seu lampião estendido acima da cabeça. Foi ele
quem se apressou para fazer a tocaia. Dois cavaleiros desceram e expuseram uma
pá e um ferro-de-cova. Neste mesmo momento ouviu uma garrucha engatilhar no seu
ouvido.
─ Amarrem ele e fechem a boca,
vamos levar pra Lagoa da Onça, lá o barro não vai deixar o corpo dele feder. ─
Disse o filho do prefeito.
O levaram amarrado e
próximo da lagoa começaram o serviço de escavação de sua cova. Bastião assistiu
a tudo soluçando e se engasgando com a saliva. Quando tiraram a mordaça ele
implorou para não morrer, nunca diria nada a ninguém, chamou pela mãe e pediu
ajuda ao pai já morto. Depois de um tempo, já mais controlado, olhou o seu
executor e lhe perguntou se poderia ao menos, antes de morrer, ter a
oportunidade de ver com seus próprios olhos o lobisomem.
─ O lobisomem? ─ Repetiu o filho
do prefeito. ─ Ah! Sim o lobisomem. Tem certeza que quer ver? ─ soltando uma
gargalhada no ar.
─ Sim! ─ Respondeu resoluto da
decisão de sua curiosidade.
Os homens levantaram
o jovem vigia e o conduziram para a traseira do carro-de-boi. Parou em frente a
abertura da lona, quando o capanga afastou com a mão, Bastião ficou apalermado
ao ver, não um lobisomem como havia imaginado e confirmado Chico Sapateiro, mas
sim, um pesado cofre abarrotado de dinheiro da Vila.
Olhou para o capanga procurando uma explicação para aquela situação em que procurou se envolver. O filho do prefeito olhou para ele e disse que já estava pensando em lhe dar somente uma pisa, mas como sua curiosidade não podia ser saciada, acabou descobrindo o segredo, o desfalque do dinheiro público.
Foi naquela mesma noite desterrado. No outro dia
um outro vigia noturno estava fazendo os mesmos trajetos.
O MERCADOR DE IDÉIAS
Fiquei por alguns minutos no alpendre, esperando que
a lua, assim como agi sobre as marés, influi-se em mim, bons pensamentos. Ela
nasceria por volta das sete horas. Adoro ver seu brilho refletido na copa dos
cajueiros, lembro que meus ancestrais, também viram esses reflexos enquanto
caçavam. Além do mais, esse ambiente faz com que a minha reflexão se torne mais
enraizada.
Encontrar respostas da vida, para saber em qual
atalho se deve enveredar. Descobrir qual a causa desse sofrimento que invade
como se fosse nato. A natureza me chama para concluir algo que o homem já
perdeu há muito tempo, isso é, se é que um dia teve: Paz.
Construir um modelo mais ético em que possamos
ingerir muito mais que a moda passageira. Criar outras circunstâncias em que
vencer na vida, seja muito mais do que sua conceituação atual, onde para se ter
um lugar de repouso — viver em paz — é necessário que muitos vivam famintos.
Uma esmola, doação tão egoísta, tanto quanto parece ser o pecado.
***
Debaixo daquela alpendragem, sem luz criada por
gente, olhava o terreiro e os pé de cajarana sombreado pelo luar. Alguém abriu
a janela e a luminosidade da casa apagou um pouco a claridade da lua, sentia
uma sensação de aparto. Logo, dona Elélia me chamou pro jantar, mas com os
pensamentos que havia me invadido, ainda embaraçavam a minha vista míope.
Pensava o quão é inútil se produzir algum trabalho consistente na nossa
sociedade.
— Obrigado
querida! Mas, não tô com fome, obrigado.
Não poderia engolir nada, só água. D. Elélia, a dona
da pensão, tinha uma simpatia especial por mim, talvez me tivesse como consolo
pela solidão em que vivia, me tratava como filho. Insistiu para que eu me comesse,
mas a minha vontade era de caminhar pelas ruas. Foi o que fiz.
Era uma segunda-feira enfadonha, todos na cidade se
recolheram cedo. As ruas eram todas minhas. No largo da Matriz, cumprimentei o
vigia que ressonava no banco. Ao me aproximar da rampa da igreja, uma voz me
fez parar.
— Quer
saber a verdade?
Olhei para trás e um bêbado, com uma blusa antiga de
muitas campanhas políticas passadas, encardida e rasgada, olhava para mim com
olhos dilatados. Sim, eu queria saber a verdade. Ele me respondeu que havia
urinado nas calças e se riu com a gracinha feita. Sorri de maneira errada. O bêbado
se ajoelhou nos batentes laterais da igreja e começou a chorar, pedia perdão
por alguma coisa que não pude entender. Ele falava como se tivesse uma batata
na língua. Continuei caminhando em direção ao Passo municipal, preferindo não
perder meu tempo com um bêbado delirante.
Era outubro e as noites estavam ventiladas. Parei
para observar uma coruja branca que alçou voou de uma das torres da igreja.
Planava com tanta facilidade. Vez em quando, batia duas ou três vezes as asas,
já era o suficiente para ganhar altura novamente. Passou por cima das acácias
causando alvoroço nas andorinhas.
Parou numa das árvores e se enfiou por entre os
galhos, muitos pássaros voaram, mas em pouco tempo a predadora infalível saiu
com sua presa nas garras. Saiu tão tranquila quanto entrou. Voando como se
fosse em câmera lenta, como se fosse rotina voltou para a torre.
Voltei a caminhar e no primeiro passo, dei de frente
com o mesmo bêbado. Não me lembrava de tê-lo visto outras vezes por essas
bandas. Queria que eu lhe desse algumas moedas, mas eu não contribuiria para
aquela morte.
— Então
volte para a sua rede! Vá para os seus sonhos e acorde amanhã cedo para dar
continuidade à sua vida fajuta. Você pensa que pode entender o mundo? Você não
entende nada! A morte é como aquela coruja, chega repentina e não erra o seu
objetivo. — Disse o bêbado claramente.
— Você
vive embriagado por ter essa certeza? Então porque não pula da ponte e antecipa
o fim da sua dor? — Falei furioso, pelos insultos.
— Seria
fácil demais. Além disso, como eu poderia, depois de morto, abrir os olhos de
tolos como você?
E com um ar nobre, virou-se e partiu como se
deixasse para trás uma criatura inútil. Fiquei chocado com a resposta que ele
me deu, tão nítida e cheia de razão que não reconheci nele um bêbado, mas uma
criatura misteriosa. Gritei por ele, para perguntar outras coisas. Ele parou e
ergueu o braço no centro da praça, a coruja branca veio mansamente e pousou.
Quando cheguei próximo a ele:
— Você
acha que pode abrir meus olhos?
— Talvez!
Isso é, se você entender que não entende nada.
— Qual
o seu nome?
— Eu
sou apenas o bêbado da praça. Quer saber porque você sofre? Eu te digo. Você
sofre porque busca entender o que não se pode entender. Esse mundo, sua lógica,
suas intenções, são mecanismos de prendê-lo ao que é provisório. Você busca
respostas, muitos nem se preocupam com isso.
A
maioria apenas espera a morte e a recompensa da felicidade em uma outra vida.
Na outra vida não existe felicidade! O que se chama felicidade, é uma
exclusividade da raça humana. A felicidade não é matéria, é sentimento. Como eu
posso achar felicidade no que é matéria, se não consigo despertar em mim o que
realmente tem valor? A matéria é a casca dos olhos, porque vocês preferem
satisfazer seus corpos com futilidades, do que pensar em outra forma de prazer.
O prazer pleno.
— Mas
todos buscam o prazer!
— Sim!
Mas, não por entenderem o que é o prazer, pois nunca sentiram o verdadeiro
prazer, a verdadeira felicidade. A vida da maioria do povo da sua sociedade é uma
alternância entre em contas a pagar e caminhos para fugir da realidade.
Sofrimento de milhões, para satisfazer a arrogância e a vaidade de poucos.
Esnobes e arrogantes, que não entenderam nada da história da tua raça. Continua
igual, sem se dar conta do que realmente tem valor. O globo, suas espécies, as
diversas formas de energia vital que nele vivem.
Têm a
oportunidade de sentir a mais diversificada quantidade de sensações, e despreza
tudo isso para construir um império que o tempo se encarregará de acabar.
Construa uma nova Mesopotâmia, ou Roma, uma Nova York, verás que o
condicionamento do tempo, levará qualquer coisa que esteja montada sobre o
sistema físico ou degenerador do planeta, às ruínas.
No meu mundo, não! Nesse mundo de pensamentos, o valor está na abundância de boas idéias. Ao contrário de negociar com o que é escasso, negociamos com o que existe de mais farto entre todos os seres que pensam. Negociamos com idéias. E a vantagem está em que, quanto mais pensamentos, sentimentos, mais se fortalece o Império das Idéias. Obviamente, existe a vontade de que haja o maior número de pessoas inteligentes, que saibam os valores da humanidade, dos outros seres e da existência.
O valor do
pensamento é o que faz o sistema funcionar.
As artes é um domínio de todos, pois são elas que impulsionam a
economia. Portanto, um país como o seu, se interessaria em alfabetizar e
extrair todo o potencial intelectual ou cultural da sua população. A riqueza
está aí. No entanto, tem que se ter o entendimento, que nenhuma cultura é mais
valiosa que outra.
As diversas culturas
e seus produtores, se constituem em moeda corrente para as necessidades de cada
região do planeta e suas espécies. Todos viveriam bem, pois isso significa a
sustentação e o andamento natural do Todo. Sem constrangimentos. O tempo então,
ao invés de correr, estica-se, causando a sensação de maior longevidade. Não
morrerias com a sensação torpe de que não fez tudo o que gostaria de ter feito.
Este é o tempo de se plantar a civilização do homo-libratuns.
O pensamento expresso nas obras artísticas,
circularia em todo o planeta. Cada povo torna-se, cada vez mais interligado às
diversas realidades, sendo necessário esse entrosamento para a manutenção
pacífica dos povos e do fortalecimento da própria identidade global. A paz, a
honestidade e o respeito são as garantias do livre pensamento.
Todas as religiões se respeitariam, pois todas
expressam as variantes de Deus. Não haveria mais a incoerência da fome, isso
será um dos marcadores do novo tempo. Uma humanidade que vive sem fome.
Precisa-se agora da maior quantidade de homens pensantes, que produzam idéias e
artes, sem a preocupação da falta de comida. Homens e mulheres fortes e
saudáveis, tanto fisicamente como intelectualmente. O governo então, é a
consciência de cada um.
Enquanto ele falava nítido, sentia meu coração cheio
de alegria. Como se tivesse achado o meu lugar. Quando senti uns safanões no ombro e
abri os olhos espantado. A voz grossa e bruta aos poucos ia se tornando mais compreensível.
- Acorda vagabundo cachaceiro! Tenha vergonha na cara e vai trabalhar safado. Passa a vida na cachaça e com esse caderno sujo no bolso. Vai fazer alguma coisa de útil. Circula, circula!
Fiz o sinal da cruz e levantei ainda tonto. A pensão, dona Elélia... de onde isso saiu? Ah! Lembro daquelas cenas agora, sonhei com o tempo em que eu era professor.